CAPÍTULO VII (CONTINUAÇÃO)

AS TRÊS CORES VIVAS

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OS HOMENS DA ESPERANÇA

Inf. D. Pedro Prínc. João
DISTRIBUIÇÃO DO VERDE
PedroJoãoSoldadoSoldadoAfonso
Ausência de ROXO INFANTE D. PEDRO
PRÍNCIPE JOÃO
Presença de ROXO SOLDADOS  (1º plano)
D. AFONSO V

O engenho e harmonia com que o pintor distribuiu as cores da sua paleta – restrita mas subtil – são tais que quase se desespera de poder comunicar o seu significado aos que recusam ponderar a inverosimilhança das coincidências intermináveis. Mais uma vez, a irresolubilidade – o coração do método de dissimulação da charada – é o nosso único recurso para fazer incidir a luz sobre as zonas obscuras e os limites dos painéis (onde os fragmentos diminutos de mangas proliferam). Se o leitor quiser recordar, na lista das anomalias com que iniciámos a nossa demanda do políptico virtual, a parte respeitante à distribuição das cores, ficará melhor preparado para abordar o que se segue.

O «uniforme» verde com gola e mangas vermelhas é reservado a D. Pedro, ao pequeno príncipe João e aos soldados do painel central direito que trajam de cores idênticas, e a percepção dessa identidade é, conforme dissemos, quase subliminar, dado o processo de irresolução permanente. Que a ligação entre essas figuras não pode ser totalmente explícita, demonstra-o o carácter parcial do que nos é mostrado: a ocultação completa da cor das calças de D. Pedro e do seu neto que usa botas altas, a amputação quase completa de braços sem a qual a ligação entre as cores das várias figuras se tornaria demasiado evidente, são indicações claras do que deve ser visto, mas não tão facilmente visto que todos o vejam. Que essa mesma ligação e a sua subtileza estejam claramente implícitas para o leitor atento que seguiu até aqui o método da charada e entende o seu sentido familiar e político, é o nosso desejo.

Os homens da Esperança distribuem-se pois por diversos painéis: reis, cavaleiros, homens do povo vestidos de soldados em torno da corda que representa a união. A conotação verde/vermelha que os aproxima, a pérola ao pescoço do desaparecido, mas recordado, cavaleiro verde da Esperança, a outra pérola sobre o barrete da criança que personifica a Esperança Futura, tudo isto obra de um pintor que apenas sabia multiplicar disparates involuntários?...

A Esperança inicializada com maiúscula comporta um elemento diabólico, conforme bem sabe toda a sabedoria de igual alcance, mas as pequenas esperanças podem existir. Mais uma vez, as coincidências numa obra de arte criada por mão humana, devem ser a excepção e não a regra. A aceitação do aleatório, no meio de tantas sugestões com uma eficácia comum, deve ter alguns limites. E assim, com o diabo a dizer as matinas à meia-noite (como bem viu Galvão quando subiu à sua capela verde), se faz votos que quem possa compreender que o espelho grande está quebrado, seja capaz de aceitar a integridade do pequeno e das cores da sua mensagem.


A COR DA TRISTEZA

Inf. D. Henrique
DISTRIBUIÇÃO DO ROXO
HenriqueAfonsoSoldadoSoldado
Ausência de VERDE INFANTE D. HENRIQUE
Presença de VERDE
D. AFONSO V
SOLDADOS  (1º plano)

Se o verde/vermelho caracteriza os homens da Esperança na perspectiva pedrista do autor da charada, o triste roxo da mortificação, usado com mais parcimónia, está associado às figuras que contribuíram para a derrota do ex-regente em Alfarrobeira. A economia da distribuição do roxo pelas várias figuras parece, como tantos outros pormenores habitualmente ignorados, planeada e não fruto do acaso: corpo, membros, cabeça, parecem desenhar uma figura humana completa, em que cada elemento tem a proporção de roxo que compete, na perspectiva familiar da Ínclita Geração, ao seu grau de culpabilidade na derrota do infante D. Pedro:

ANATOMIA DO ROXO
INFANTE D. HENRIQUE CORPO
D. AFONSO V MEMBROS
SOLDADOS ANÓNIMOS CABEÇA

A forma como os roxos do irmão Henrique e do sobrinho Afonso V se complementam parece deliberada: roxo sem atenuação para o infante D. Henrique, mas mitigado pelo verde para D. Afonso V, combinando a esperança no monarca que jamais rejeitou a sua mulher conforme pretendiam os maus conselheiros que o conduziram a Alfarrobeira, contra a vontade dos quais conseguiu posteriormente a reconciliação familiar, recebendo do exílio e reinvestindo nos seus cargos muitos dos derrotados, entre os quais o próprio filho mais velho de D. Pedro, com a mortificação pela inexperiência e fraqueza dos seus 17 anos.

São, no entanto, os barretes roxos distinguidos com pequenos elementos dourados (uma fila de pequenas decorações de ouro, uma pequena medalha suspensa de um fio) – para os humildes que na jornada de Alfarrobeira marcharam contra os seus defensores – que requerem mais atenção para se compreender o políptico virtual que se prepara, e a sensação de hábil intencionalidade está mais uma vez presente.

Ouro sobre roxo Mais ouro sobre roxo De todos os pormenores que revelam o extraordinário grau de elaboração do labirinto de significados, poucos serão simultaneamente tão silenciosos e eloquentes como o dos dois barretes roxos, amachucados e ridículos (compare-se o seu estado com o dos restantes barretes), mas decorados com pequenos elementos dourados.

O que, na óptica generosa do pintor, os pequenos dourados recompensam de forma comovente, é a tristeza dos que não escolhem nem compreendem. Um forte significado político associado ao âmbito restrito e familiar que censura D. Afonso V e castiga sem apelo a memória do infante D. Henrique, é aqui detectável de forma coerente e incontornável.

As expressões pouco inteligentes, os olhares mortiços dos populares equipados para a guerra, envergando o verde/vermelho do infante D. Pedro e do seu neto, mas coroados pelos barretes roxos emblemáticos da mortificação – sem compreensão do seu próprio papel na derrota do seu defensor, mas recompensados pela sua inocência e pobreza de espírito – recorda-nos a imagem evangélica: os simples, os sem culpa, são aqui os únicos a merecer não só o ouro sobre o roxo, mas também a atenção da figura central, detentora da vara de comando, designando o mais humilde de entre eles com uma intenção que só na fase final da charada poderemos compreender completamente.

Sabendo-se que o exército reunido contra o ex-regente pelos seus inimigos atingiu os 30.000 homens – um dos maiores até então vistos em Portugal – e que a sua composição foi, como é evidente, semelhante à de qualquer outro exército, dessa ou de qualquer outra época, o significado da distribuição tricolor nos painéis fica completo. A descodificação, segundo as cores principais que integram cada uma das figuras no simbolismo global, é portanto a seguinte:

RESUMO DA CODIFICAÇÃO TRICOLOR
Simbolismo global
CARACTERIZAÇÃO CATEGÓRICA AMBIVALENTE
POSITIVA
ESPERANÇA
INFANTE D. PEDRO
PRÍNCIPE JOÃO
D. AFONSO V
SOLDADOS COMUNS
SACRIFÍCIO
INFANTE D. JOÃO
RAINHA D. ISABEL
 
NEGATIVA
MORTIFICAÇÃO
INFANTE D. HENRIQUE (D. AFONSO V)
(SOLDADOS COMUNS)

Parece fazer sentido e esgotar a paleta simbólica, na perspectiva pedrista que tem em conta, tanto o contexto de Alfarrobeira, como o da reconciliação posterior.

E antes de passarmos a abordar a distribuição das cores neutras no painel dos reis, é altura de proporcionarmos ao leitor hesitante mas observador, mais dois exercícios através dos quais poderá verificar que as críticas que, ignorando o método da charada, apontam possíveis fraquezas da leitura simbólica, se revelam quase sempre pertinentes e úteis, uma vez que põem em relevo aspectos paciente e deliberadamente criados para dificultar a sua resolução.

A consideração cuidadosa de todas as objecções que têm em conta aquilo que é factualmente observável nos painéis, revela-se quase sempre surpreendente, e abre com frequência novas portas de apreensão subtil, acabando por confirmar a própria espiral das pistas e despistagens intencionais que, por essa via, se pretenderia negar.