CAPÍTULO VI

A LÓGICA DOS QUATRO CAVALEIROS

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Identificações familiares

Admitamos como hipótese a identificação dos quatro cavaleiros como os quatro tios do rei D. Afonso V, todos eles falecidos à data da pintura do políptico, mas certamente recordados em retratos hoje perdidos, semelhantes aos que o autor do manuscrito do Rio de Janeiro regista para D. Duarte e D. Pedro. Se as suas efígies no painel dos Cavaleiros se aproximarem da idade com que faleceram, isto é, se traduzirem a aparência de cada um deles melhor recordada pelos seus contemporâneos sobrevivos, ou os seus possíveis retratos mais recentes (completados ou tomados em esboço para posterior referência), obteremos aproximações etárias que parecem admissíveis:

FERNANDO (negro): 41
JOÃO (vermelho): 42
PEDRO (verde): 57
HENRIQUE (roxo): 66

Acrescente-se que o quinto irmão, Duarte, que atrás identificámos como a figura de chapéu borgonhês, faleceu aos 47 anos, idade que parece igualmente admissível para a sua representação no painel dos reis.

Se os quatro cavaleiros são de facto personagens históricas identificáveis, é lícito supor que os seus rostos foram reconhecíveis, se não para todos os seus contemporâneos, pelo menos para os seus familiares imediatos. Os fios da charada cuja teia procuramos deslindar, não respeitaram portanto originalmente a identidade, mas sim a caracterização, de cada um deles. Ou seja, para nós, que nos debruçamos sobre o políptico a mais de cinco séculos de distância, a charada original encontra-se acrescida de um mistério suplementar: ao contrário dos autores e destinatários da pintura original, nem sequer sabemos quem é quem.

Paradoxalmente, os elementos pictóricos através dos quais o autor dos painéis criou a sua charada subtil, caracterizando diferentemente quatro figuras bem conhecidas, fornecem-nos as pistas para a resolução do nosso duplo enigma moderno: torna-se possível, de um só golpe, compreender a lógica do painel e através dela identificar as figuras de modo convincente.

A chave principal do painel reside nas ordens de cavalaria a que os quatro estiveram ligados, e o seu poder explicativo decorre de dois factos: a figuração disfarçada dos símbolos das ordens ajusta-se extraordinariamente bem à representação de cada uma das quatro figuras através das ordens a que pertenceu, e simultaneamente são explicadas todas as aparentes anomalias do painel cujo rol fizemos noutro local.

O processo que o autor do políptico utilizou para dissimular a sua mensagem – ou seja, a sua aplicação do modus operandi da charada global à caracterização moral dos quatro irmãos – foi o seguinte: representou o estatuto dos cavaleiros e o seu próprio julgamento dos mesmos através dos símbolos das suas cavalarias. A indignidade do cavaleiro que trai os seus, a rectidão de quem se pauta pelas suas lealdades, a santificação do cavaleiro que morre pela sua fé, todas essas imagens estão presentes – com ou sem justiça, não reside aí o nosso problema – nos quatro infantes da Ínclita Geração. E a forma hábil e económica como o autor do políptico consegue concentrar os dados históricos (as ordens), a intenção moral (a forma como cada um recebe os símbolos que lhe dizem respeito), e a lógica da charada (a forma como tudo isso é dissimulado, integrando e completando a lógica global de que progressivamente nos iremos apercebendo) é um dos verdadeiros milagres do políptico.


QUATRO ORDENS PARA QUATRO INFANTES

Um precioso elemento para a comprovação da charada reside na impossibilidade histórica de ligar cada um dos quatro infantes a uma e uma só ordem de cavalaria.

A presença das ordens religiosas de cavalaria portuguesas neste painel, tem sido por vezes suspeitada. No entanto, a pretensão de fazer corresponder cada ordem a uma figura – como se de alegorias se tratasse – impediu a compreensão do conjunto. O caso muda de aspecto quando examinamos as ligações conhecidas dos infantes às ordens de cavalaria nacionais e estrangeiras a que pertenceram. Representemos essas ligações através de um primeiro quadro:

I GOV. DO MESTRADO MEMBRO DA ORDEM
PEDRO JARRETEIRA
HENRIQUE CRISTO JARRETEIRA
JOÃO SANTIAGO
FERNANDO AVIS

A investidura dos três filhos mais novos de D. João I como governadores das três ordens religiosas militares referidas iniciou, como se sabe, uma prática habitual que viria mais tarde a culminar na anexação dos três mestrados pela coroa. A admissão dos infantes D. Pedro e D. Henrique no seio do restrito e sobre todos honroso círculo de 24 cavaleiros da ordem inglesa da Jarreteira, é igualmente bem conhecida (1).

A distribuição de quatro ordens de cavalaria pelos quatro cavaleiros que as governaram ou a elas pertenceram, é pois, providencialmente para nós, mais elaborada do que a simples consideração dos três mestrados portugueses poderia sugerir. Não só o infante D. Henrique juntou o governo da ordem de Cristo à sua filiação na Jarreteira, como esta última ordem contou igualmente com a presença do infante D. Pedro no seu seio.

Ou seja, a uma das figuras (infante D. Henrique) deverão corresponder duas ordens, e a uma das ordens (Jarreteira) duas figuras.

Se a distribuição dos símbolos pelos cavaleiros segue justamente este modelo, se através desses símbolos o genial autor da charada caracteriza os seus detentores de uma forma moral inteiramente coerente com a restante caracterização simbólica omnipresente que torna compreensível o motivo da ocultação, e se ao mesmo tempo assim ficam explicadas todas as intrigantes anomalias do painel dos Cavaleiros, torna-se finalmente impossível continuar a ignorar não só a identidade dos quatro, mas o seu diferente estatuto: três cavaleiros honrados e um em desgraça.

Comecemos por descrever os símbolos heráldicos das ordens de cavalaria em questão:

Jarreteira       Cristo  SantiagoAvis

1)  JARRETEIRA: um dos símbolos ligados à ordem da Jarreteira é o do cavaleiro (S. Jorge) combatendo o dragão, mas o mais tradicional e conhecido emblema, hoje como no passado, é certamente o cinto apertado, formando uma circunferência, com os dizeres «Honi soit qui mal y pense». Em rigor, o emblema que acompanha o trajo cerimonial é uma liga de veludo azul com o formato de um cinto em miniatura que nos remete para a origem e a própria designação da ordem. A sua representação heráldica, no entanto, é em tudo idêntica a um simples cinto com a fivela apertada e a ponta oposta pendendo verticalmente (2).

2)  ORDENS RELIGIOSAS MILITARES: os emblemas das três ordens religiosas militares são três tipos diferentes de cruz, com características heráldicas bem definidas.

a)  CRISTO: a cruz emblemática da ordem da Cristo usada no tempo do infante D. Henrique era algo diferente da versão moderna, popularizada como símbolo dos descobrimentos. Os dois lados de cada braço, em vez de terminarem em prolongamentos angulosos, assumiam uma curvatura progressiva, e o topo de cada braço era igualmente curvo e côncavo. Semelhante modelo de cruz encontra-se representado em edifícios ligados à ordem e no próprio túmulo do infante. Os modelos de cruz progressivamente angulosos (possivelmente para facilitar a sua cosedura nas velas dos barcos) que o substituíram registam-se a partir do início do séc. XVI até à assunção do formato moderno. Em todos os modelos, claro está, a cruz da ordem de Cristo é, como se diz em heráldica, vazia ou aberta, isto é, dotada de uma abertura igualmente em forma de cruz.

b)  SANTIAGO: cruz em forma de espada.

c)  AVIS: cruz florida (i e. com braços que terminam em florões) com a particularidade heráldica de serem encurtadas as pétalas centrais dos florões e aproximadas as laterais aos braços para representação da inicial «M» de Maria, padroeira da ordem. Como a da ordem de Calatrava que a originou (3), a cruz de Avis pode ser descrita como terminada por quatro letras «M», opostas duas a duas.

Os emblemas das ordens portuguesas de Cristo, Santiago e Avis são aliás visíveis nos próprios túmulos do Mosteiro da Batalha onde jazem os três irmãos que as governaram, respectivamente os infantes D. Henrique, D. João e D. Fernando (4):

AS TRÊS ORDENS NOS TÚMULOS DA BATALHA
(pedras originais)
Infante D. Henrique Túmulo de D. Henrique
Infante D. João Túmulo de D. João
Infante D. Fernando Túmulo de D. Fernando

Passemos a considerar os únicos dois dos quatro irmãos que alguma vez se encontraram em campos opostos de uma batalha: Pedro e Henrique (5). A existência de dois segundos cintos, notórios pelas razões apontadas, precisamente nos dois únicos cavaleiros da Jarreteira presentes no painel, seria por si só uma coincidência de monta, mas observe-se ainda, em reforço da percepção da pequena charada local, a forma como o cinto sem mácula do cavaleiro da pérola recorda de forma dissimulada a sua preciosa «Garroteia», com a curva da sua ponta achatada de uma forma pouco natural que contraria a rigidez do couro mas aponta a intenção de sugerir a forma emblemática da ordem.

Um cinto em desalinho

Uma cruz partida

Um cinto bem ordenado Para o cavaleiro da cruz partida, é o cinto desapertado e caído que parece ter furos desalinhados e confundir-se com a bainha que carece de explicação, e a explicação é esta: a Jarreteira desordenada do infante D. Henrique representa a desonra do seu detentor. Dada a filiação do infante em duas ordens diferentes, abre-se uma via natural de confirmação desta leitura simbólica: se pudermos descobrir uma representação da ordem de Cristo carregada de idêntico simbolismo negativo, poderemos confirmar a intenção do cinto em desgraça.

Essa descoberta não é difícil porque o formato da cruz partida é exactamente o que seria de esperar e se pode ver no próprio túmulo do infante: braços com curvatura progressiva e topos igualmente curvos e côncavos. O número das bossas – subentendido, uma vez que a do topo está ausente em virtude da quebra da cruz – representa Cristo. A cruz não é vazia, mas é igualmente incompleta: onde deveria estar uma cruz oca e inteira está uma outra cheia mas partida, e uma cruz partida ao pescoço de alguém tem uma significação moral inequívoca.

Prevendo todas as dúvidas, o autor da charada fornece-nos uma confirmação: no disco dourado do cotovelo do infante D. Henrique a mensagem repete-se sob a forma de uma cruz vermelha quebrada por um raio de luz, com um simbolismo próximo de uma das formas heráldicas de indicar a quebra de um escudo de brasão, através de um filete disposto em barra. Um reflexo, sem dúvida, mas um reflexo planeado: não foi por acaso que se escolheu o ouro, cujo reflexo é vermelho, enquanto o da prata seria branco. O leitor incrédulo escusa de procurar outro reflexo vermelho com a mesma forma de cruz nos dourados das restantes 59 figuras presentes – 59 figuras que tão-pouco ostentam cruzes alusivas quebradas ao pescoço – porque não o encontrará. Mais uma coincidência a registar? Ou as cruzes crísticas partidas e fendidas concentradas numa única figura significarão o que pensamos? O leitor julgará, mas não deverá julgar antes de recolher pacientemente a totalidade dos elementos que procuramos facultar-lhe...

Uma cotoveleira alusiva Outra cotoveleira alusiva Semelhante confirmação da ordem de Cristo através de uma cotoveleira não é única, porque o autor da charada aproveitou todas as oportunidades para veicular a sua mensagem: se o leitor sente relutância em aceitar que o espelho dourado do cotovelo do infante D. Henrique confirma a ordem de Cristo desonrada ao seu pescoço, poderá dirigir a sua atenção para o espelho de prata do cotovelo do infante D. João – o irmão mais próximo do malogrado regente, que sempre esteve a seu lado, na vida real como nos painéis – porque também aí se confirma e reforça a imaculada ordem da Jarreteira de D. Pedro, na proximidade imediata do seu cinto e restantes símbolos positivos (pérola, espada de pomo rutilante). Aquilo a que a estranha cotoveleira (articulada para fora, de forma impossível) alude é ao segundo símbolo da ordem: os 24 – o número de cavaleiros da Jarreteira – que, como S. Jorge, não receiam a boca do dragão e aí são representados através de quatro enigmáticos grupos de seis pontos luminosos, com uma disposição geométrica rigorosa, aliás muito dificilmente legível como produto de reflexos metálicos, planeada na sua regularidade apenas para que, no seu provável estado anterior aos restauros, se pudesse perceber que os 24 se reduziam aqui, no painel em que o infante D. Henrique é representado em desgraça, a 23.

A alternativa a tudo isto, é claro, terá de ser novamente o ingénuo literalismo fotográfico, passando pela admissão como objecto realmente existente de uma cotoveleira que não pode ser devidamente articulada, toda ela voltada para o cinto do cavaleiro verde (talvez o cotovelo do cavaleiro vermelho tenha sido deslocado nalguma justa, passando a articular-se de forma anatomicamente anormal...), e a sua sobreposição com os seus 24 (23?) pontos luminosos ao cinto sugestivo da Jarreteira terá de ser apenas uma coincidência mais. É natural que o leitor tenha, por agora, dificuldade em aceitar a rede completa de significações, mas não é, felizmente, necessário perceber tudo de imediato, porque o essencial vai chegar.

A descoberta das ordens de cavalaria correctas nas duas figuras mais avançadas confirma pois a Jarreteira comum a Pedro e Henrique, e também a ordem de Cristo deste último.

Para o terceiro dos irmãos, o infante D. João, a representação da sua ordem de Santiago sob a forma de uma espada – semelhante, mais uma vez, à que se pode ver no seu túmulo – é de tal forma óbvia, que quase faz esquecer a objecção possível que aponta outras espadas nas mãos de outras figuras. E a resposta à objecção é simples porque só aqui o dono da espada a exibe como um verdadeiro emblema, levantando-a pela ponta e apoiando-a sobre o peito. O emblema de Santiago, recordemo-lo, é uma cruz em forma de espada, cosida sobre o peito (6).

Uma nova versão do quadro das ordens de cavalaria, através dos símbolos sob que se encontram dissimuladas, será pois a seguinte:

II GOV. DO MESTRADO MEMBRO DA ORDEM
PEDRO CINTO
HENRIQUE CRUZ INCOMPLETA CINTO
JOÃO ESPADA
FERNANDO «M» OPOSTOS 2 A 2

Uma cruz incompleta e uma espada literal (o simbolismo está na forma como é exibida) são maneiras imediatas e sugestivas de representar Cristo e Santiago, como os cintos em evidência de simbolizar a Jarreteira, mas como representar a forma da cruz de Avis cuja única particularidade é a oposição das letras «M» duas a duas? Se esquecermos o significado dos seus florões, apenas ficam os braços da cruz, indistintos dos de qualquer outra cruz; e se procurarmos uma representação que acompanhe, de algum modo, o significado abstracto dos «M» de Maria, como encontrá-la no retrato despojado do quarto cavaleiro? A figura está de tal modo simplificada que é possível descrevê-la por completo em pouquíssimas palavras:

Os «M» de Maria A cota de malha apropriada ao guerreiro e a cor negra sugerindo o luto enquadram-se bem com uma representação do Infante Santo, mas são os dois «M» que confirmam a hipótese. A constatação de duas configurações opostas em forma de «M», ambas enigmáticas, numa figura que quase não apresenta outras características dignas de nota, é a primeira pista para compreendermos a caracterização de D. Fernando através do nome de Maria – aqui, como na cruz de Avis, simbolizado através dos «M» opostos – permitindo a resolução completa da charada local das quatro ordens de cavalaria.

D. Fernando figura logicamente com a sua própria cara, mas com uma representação de mártir que explica o seu aspecto: o cabelo comprido e a barba talhada em forma de «M» invertido (como a de Jesus) conferem-lhe uma imagem crística, uma forma de representação como Infante Santo que, de resto, se viria a tornar frequente. Note-se que a representação tradicional, barbado e com cabeleira comprida e desgrenhada, é desde logo visível no Tríptico do Infante Santo do Museu de Arte Antiga de Lisboa, que data do séc. XV e mostra bem a sua antiguidade. Desde então, ela tornou-se praticamente uma convenção iconográfica que dura até aos nossos dias.

O capacete mouro sobre a cabeça do malogrado infante indica, não a derrota, mas a humilhação e o martírio, títulos de glória e não de lamentação, quando suportados em nome da fé. É esta a visão do séc. XV, e jamais a entenderemos se persistirmos em usar os olhos do nosso tempo. O capacete do inimigo coroa o Infante Santo, seu refém e vítima, como os espinhos coroam Cristo e o cabelo e a barba sugerem a imitação crística. A orla dourada cerca o símbolo adverso conferindo-lhe um valor positivo análogo ao da coroa de espinhos. O reflexo luminoso em forma de «M» – a letra não mudou de forma, e escrevia-se tanto na versão curva como na angulosa – recorda a inicial de Maria, que se sobrepõe ao capacete e acentua o seu valor positivo.

Assim, através do duplo «M» do capacete e da barba (7), o autor transforma o símbolo do inimigo no símbolo do martírio, e coloca o nome da mãe de Cristo directamente sob os olhos do mártir e sobre o ouro que o coroa. Simultaneamente, associa a figura à ordem que lhe compete através da única particularidade heráldica desta última que podia ser aproveitada para esse fim, e completa a caracterização dos quatro irmãos!

Podemos resumir graficamente as caracterizações dos quatro irmãos vestidos de verde, vermelho, roxo e negro, através do seguinte quadro:

AS ORDENS DE CAVALARIA
Quatro infantes e quatro ordens
Uma representação dissimulada, subtil e carregada de moralidade, das ordens de cavalaria a que pertenceram os quatro irmãos de D. Duarte:
PEDRO
Jarreteira (cinto)
HENRIQUE
Cristo (cruz de Cristo), Jarreteira (cinto)
JOÃO
Santiago (espada)
FERNANDO
Avis (cruz mariana)

Uma boa charada, como um bom problema de xadrez, é económica (poucas pedras), mas rica de significações (estratégias elegantes). Se ponderarmos as aparentes anomalias do painel dos Cavaleiros e a forma como todas elas apontam no sentido de uma caracterização moral, oculta mas decifrável, de cada uma das figuras através das ordens a que pertenceu, poderemos pois integrar o quarto cavaleiro e a sua ordem de Avis na mesma lógica da decifração e tirar conclusões. A figuração do infante D. Fernando resolve os seguintes problemas:

  1. Representa o seu rosto, a sua ordem e o seu martírio.

  2. Caracteriza a personagem através da sua ordem, à semelhança do que sucede com as restantes:
  3. Esgota os irmãos e as suas ordens de cavalaria – que começámos por distinguir através de dois cintos ambíguos – com uma eficácia difícil de atribuir ao puro acaso.

  4. Explica as quatro anomalias da figura:

A identificação do Infante Santo merece alguns comentários adicionais.

Em primeiro lugar, valida o método que temos seguido, salienta a charada, e sublinha, por contraste, a ingenuidade dos palpites sem método que nos condenam à presença de um guerreiro azenegue, ou de um funcionário mourisco (de capacete?), ou de um refém mouro promovido a um estatuto iconográfico comparável ao dos seus guardiões, no meio de uma floresta de enganos que fica por referir, quanto mais por explicar. Ou – pior ainda – de um cavaleiro cristão com alergia ao barbeiro (apesar da precisão do seu talhe de barba), usando um capacete inexplicável que não consta de armaria cristã coeva, embora possa, pelo menos na intenção do pintor, ser apontado – como efectivamente tem sido, e pelas mais díspares interpretações do políptico – como uma referência norte-africana ou islâmica.

Em segundo lugar, permite-nos uma melhor penetração da mente que se encontra por detrás do espelho, capaz de invocar imagens poéticas fulgurantes, ao mesmo tempo que tece como uma aranha uma teia implacável de lógica e inteligência: a luz que brilha sobre a cabeça do Infante Santo não reflecte nenhuma fonte exterior: ilumina, isso sim, o próprio espelho de que nasce e a nossa apreensão do espírito que o concebeu.


NOTAS

1)  À data provável do políptico, D. Duarte e D. Afonso V, como mais tarde D. João II, tinham igualmente sido admitidos na Jarreteira, mas na pintura a codificação útil das ordens é limitada ao painel dos Cavaleiros. Os números de ordem e anos de admissão dos três irmãos foram: Pedro, nº 144 (1427); Duarte, nº 149 (1435); Henrique, nº 160 (1442). A D. Afonso V coube o nº 164 (1447).

2)  O formato do cinto emblemático da ordem mantém-se inalterado desde a origem. Pode ser observado, por exemplo, lado a lado com a representação de S. Jorge e o dragão, no armorial de William Bruges, seu primeiro rei de armas.

3)  Cf., por exemplo, Terence Wise (1984), p. 28, a propósito da ordem de Calatrava (válido igualmente para a ordem portuguesa, originária da de Calatrava, que adoptava a mesma padroeira e o mesmo formato de cruz, variando apenas a sua cor, tradicionalmente verde em Portugal): "In 1397, the Order adopted a red cross insignia – originally a cross fleury, but the leaves of the fleur-de-lis were later bent back until they touched the 'stem' to form an M for 'Maria', i.e. more like a cross flory."

4)  Os emblemas são visíveis no terço esquerdo das pedras faciais dos túmulos dos infantes que governaram as três ordens. A sepultura de D. Pedro, que não esteve ligado a nenhuma delas, exibia no lugar equivalente as suas próprias armas, partidas de Aragão e infante de Portugal (traduzindo assim a sua pretensão ao trono aragonês) e, ao centro, exactamente como para o seu irmão Henrique, figurava o cinto emblemático da Jarreteira a que ambos pertenceram. As fotografias mostram os símbolos das três ordens portuguesas nas pedras originais, hoje retiradas dos túmulos e preservadas no Mosteiro da Batalha, mas as reproduções que actualmente ocupam o seu lugar nos túmulos propriamente ditos parecem ser fiéis e estão certamente de acordo com os desenhos executados por James Murphy no séc. XVIII, antes das invasões francesas, quando os túmulos se encontrariam ainda presumivelmente intactos e intocados.

5)  A participação pessoal do infante D. Henrique na batalha de Alfarrobeira é por vezes discutida, mas Zurara é bem claro: «Foi ainda o infante D. Henrique com el-Rei D. Afonso V, seu sobrinho, naquele ajuntamento que fez sobre o infante D. Pedro, de que se seguiu a batalha de Alfarrobeira». A presença das suas forças no exército que derrotou o irmão – que, isolado em Coimbra depois de abandonar a regência, e intimado ao desarmamento que o colocaria à mercê dos seus inimigos, optara pela sortida final rumo a Lisboa – é um facto. A preocupação de Zurara, um verdadeiro panegirista do infante D. Henrique, em justificar a sua inércia como um dilema em que não poderia ter procedido de outro modo «não tão somente por seu irmão, mas por mil filhos ainda que os tivera, nem ainda por salvação de si mesmo» mostra que o comportamento do infante era alvo de críticas e precisava de ser justificado de forma enfática. Quanto às numerosas cartas de D. Afonso V confirmando doações e privilégios concedidos ao infante D. Henrique, escritas em Santarém durante a segunda semana de Março de 1449, em plena crise causada pelas intrigas dos inimigos do ex-regente e pouco tempo antes do desfecho de Alfarrobeira, podem talvez sugerir que existiu um entendimento pelo menos tácito, mas calculado, entre o infante D. Henrique e o rei, antes da tragédia final (documentação transcrita em José Manuel Garcia, 1995).

6)  A espada emblemática sobre o peito pode ver-se, por exemplo, no jacente tumular do mestre de Santiago castelhano D. Álvaro de Luna, uma figura aliada do regente português, bem como no painel do retábulo de Toledo que o retrata.

7)  Note-se ainda que o formato do «M» invertido da barba é bem delimitado e preciso, muito mais semelhante a uma sebe talhada com rigor intencional por parte do jardineiro que a imaginou, do que aos limites imprecisos da cabeleira do próprio infante D. Fernando ou de quaisquer outras barbas ou cabeleiras presentes no políptico, ou, inclusivamente, da própria barba bifurcada de Jesus, frequentíssima na iconografia cristã, mas não necessariamente como exemplo de barbearia artística, sem um único pêlo transgressor fora do seu lugar...