APÊNDICE I

DESCRIÇÕES FÍSICAS

PesFraInfArcCavRel

As descrições físicas de D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique que possuímos são um poderoso reforço da identificação feita a partir do políptico.


I – D. DUARTE

Encontramos descrições de D. Duarte na crónica de Rui de Pina e no manuscrito do Rio de Janeiro a que aludimos no 1º capítulo:

Duarte «Homem de boa estatura do corpo e de grandes e fortes membros; tinha o acatamento da sua presença mui gracioso, os cabelos corredios, o rosto redondo e algum tanto enverrugado, os olhos moles, e pouca barba...»

                                       Rui de Pina, Crónica de D. Duarte

«El-Rei D. Duarte está na sacristia de S. Domingos em uma tábua pequena, de altura um covâdo, e está o corpo todo, posto que a tábua é pequena, acima dos armários onde se revestem os frades para dizer missa. Não tinha mais barba que os bigodes, há dias que o não vi, não sei se está ainda aí, ou o mudaram os frades para outra parte...»

                                       Manuscrito do Rio de Janeiro

A descrição de D. Duarte a partir de duas fontes independentes, uma delas descrevendo um retrato em que se apresenta de bigode, e a outra mostrando uma possível razão (barba escassa) para um talhe de barba não muito frequente na época - ou talvez até confirmando o bigode («pouca barba» no mesmo sentido de «não tinha mais barba que...», isto é tinha «barba» entre o nariz e o lábio) – parece concordar com a figura melancólica de chapéu borgonhês.

O rosto «enverrugado» (i. e. com rugas) e os olhos «moles» (i. e. melancólicos) poderiam ser uma excelente descrição do retrato dos painéis, mas é o bigode a mais importante indicação da sua identidade. O uso de bigode desacompanhado de barba, não devendo ser considerado uma excentricidade, era todavia suficientemente raro para poder ser considerado um elemento de identificação de primeira ordem. Não possuímos mais nenhuma descrição que aponte algum dos outros candidatos à identificação com o «homem do chapeirão» como usando bigode, o que, só por si, é uma boa indicação do verdadeiro rosto do mais amável e melancólico dos cinco irmãos.


II – D. PEDRO

Também de D. Pedro possuímos duas descrições, originárias das mesmas duas fontes independentes:

Pedro «Homem de grande corpo, e de seus membros em todo bem proporcionado, e de poucas carnes, teve o rosto comprido, nariz grosso, olhos um pouco moles, os cabelos da cabeça crespos, e os da barba algum tanto ruivos como inglês...»

                                       Rui de Pina, Crónica de D. Afonso V

«...no mosteiro de Odivelas (...) o rosto somente tinha na cabeça uma caraminhola em modo de barrete de veludo carmezim que parece que se usava naquele tempo, o rosto comprido, e o pescoço muito comprido, com um nó muito grande na garganta...»

                                       Manuscrito do Rio de Janeiro

O rosto e pescoço longilíneos e nariz grande correspondem bem à imagem do cavaleiro de verde, e os cabelos «crespos» (o contrário de «corredios») parecem ter sido escuros, uma vez que é a barba que é expressamente descrita como um tanto ruiva (i. e. mais aloirada que o cabelo). Malibu Dijon A referência separada à cor da barba implica que D. Pedro teria cabelo e barba de tons diferentes, uma vez que, se assim não fosse, a descrição seria naturalmente genérica (por exemplo: «cabelo ruivo» sem mais, em vez da fórmula «e os da barba algum tanto ruivos»). A barba aparada na figura dos painéis não permite uma avaliação da cor, mas tudo o resto coincide.

Pelas figuras dos painéis, descrições, e presunção do tipo de rosto de D. João I a partir do seu único retrato sobrevivente (1), talvez possamos concluir que dos seus filhos, Duarte, Henrique e João teriam faces mais próximas do tipo fisionómico do pai, enquanto Pedro, Isabel e Fernando, que seriam mais longilíneos, sairiam talvez à ascendência inglesa pelo lado materno. A parecença física de D. Henrique com o pai é referida por Zurara, e quanto ao rosto de Isabel, é descrito como «alongado e pouco gracioso» por Aeneas Silvius Piccolomini (o futuro papa Pio II) no seu De Viris Illustribus (uma referência injusta, a avaliar pelo rosto, longo mas certamente gracioso, na presumível cópia de um dos seus retratos mais antigos, existente no Museu de Dijon).

Note-se que as poucas descrições físicas dos infantes da Ínclita Geração que chegaram até nós são suficientes para se concluir que os cinco irmãos, como tantas vezes acontece, não foram muito parecidos entre si. Pedro e Isabel, no entanto, podem tê-lo sido. A comparação do retrato do cavaleiro verde dos painéis com a «Persica Sybilla 1ª» do Museu Getty de Malibu é eloquente: rostos e pescoços compridos, idêntica colocação dos olhos, narizes proeminentes com a mesma curvatura central protuberante.


III – D. HENRIQUE

A mais inesperada confirmação da identidade do infante D. Henrique como o cavaleiro vestido de roxo dos painéis pode ser encontrada nessa fonte de permanentes equívocos – a tal ponto estranhos que chegam a parecer planeados – que é a Crónica dos Feitos da Guiné de Zurara:

Henrique «...ouue a estatura do corpo em boa grandeza e foe home de carnadura grossa e de largos e fortes membros a cabelladura auya alguu tanto aleuantada a coor de natureza branca mais polla continuaço do trabalho per tepo tornou dotra forma. Sua presença do primeyro esguardo aos nom husados era temerosa...»

                               Gomes Eanes de Zurara, Crónica dos Feitos da Guiné

NOTA: Dada a importância desta descrição, mantemos a grafia e pontuação originais (indicadas em Manuel Sampayo Ribeiro, 1991), eliminando contudo o til de nasalação presente nas palavras «home» (letra e), «alguu» (primeira letra u), «continuaço» (letra o final), e «tepo» (letra e), a fim de evitar caracteres de leitura electrónica problemática.

Tal como D. Duarte possui uma característica física que o individualiza – o uso de bigode – também D. Henrique possui nos painéis um traço bastante distintivo: a sua cabeleira branca, que parece ser confirmada pela descrição de Zurara. No entanto, sempre que se interpreta o trecho acima transcrito, a «cor de natureza branca» é ligada à pele e não ao cabelo. Mais uma vez, um erro antigo parece impedir toda e qualquer tentativa de repensar dados que se têm como adquiridos.

Com efeito, uma outra descrição do infante, um século depois da sua morte, por João de Barros na Ásia (1ª Década, livro I), é feita nos seguintes termos: «Dizem que a estatura do seu corpo era de compassada medida, e de largos e fortes membros acompanhados de carne: a cor do qual era branca e corada, em que bem mostrava a boa compleição dos humores. Tinha os cabelos algum tanto alevantados, e o acatamento, à primeira vista (por a gravidade de sua pessoa) um pouco temeroso a quem dele não tinha conhecimento...».

Comparemos então as descrições do infante por Zurara, seu contemporâneo, e João de Barros, que escreve muito mais tarde, dispondo-as em duas colunas divididas em quatro partes para facilitar a sua análise (as duas citações são contínuas e devem ser lidas verticalmente):

ZURARA BARROS
(...) ouue a estatura do corpo em boa grandeza e foe home de carnadura grossa e de largos e fortes membros Dizem que a estatura do seu corpo era de compassada medida, e de largos e fortes membros acompanhados de carne:
a cabelladura auya alguu tanto aleuantada a cor do qual era branca e corada, em que bem mostrava a boa compleição dos humores.
a coor de natureza branca mais polla continuaço do trabalho per tepo tornou dotra forma. Tinha os cabelos algum tanto alevantados,
Sua presença do primeyro esguardo aos nom husados era temerosa (...) e o acatamento, à primeira vista (por a gravidade de sua pessoa) um pouco temeroso a quem dele não tinha conhecimento (...)

Transcrevemos a passagem de Barros com grafia actualizada, conforme temos feito ao longo deste livro, mas continuamos a manter a de Zurara com a grafia e pontuação primitivas pela seguinte razão: introduz-se habitualmente, nas adaptações modernas, um sinal de ponto e vírgula depois da palavra «alevantada» que modifica por completo o sentido original da descrição, conforme passamos a ver.

A descrição de Barros – obviamente decalcada da de Zurara – introduziu um erro que se manteve até hoje, e consistiu em tomar a «cor de natureza branca», que em Zurara se aplica ao cabelo do infante, pela cor da sua pele. O erro é compreensível porque a construção de Zurara é rebuscada, mas a opção de Barros é indefensável porque a torna absurda. Para melhor entendimento observe-se a ordem em que se processam as duas descrições:

ZURARA BARROS
1) CORPULÊNCIA 1) CORPULÊNCIA
2) CABELO ALEVANTADO 2) COR BRANCA
3) COR BRANCA 3) CABELO ALEVANTADO
4) ASPECTO TEMEROSO 4) ASPECTO TEMEROSO

Note-se como seria estranho que Zurara iniciasse a descrição com o corpo e as carnes, seguidamente se interrompesse a si próprio para referir a cabeleira (simplesmente para nos dizer que era espigada, sem sequer nos referir a sua cor), e depois retomasse a descrição das carnes para nos dizer que eram brancas, mas que mudaram de cor com o «trabalho»!

João de Barros, que não compreende a construção de Zurara, sente todavia a aparente sucessão de absurdos, e não só inverte a ordem das referências ao cabelo e à cor, como ainda – sem dúvida perplexo com as mudanças camaleónicas da compleição do infante – suprime por completo a estranha noção de que as preocupações, os problemas (o «trabalho»), teriam mudado a cor da sua pele, mantendo com algum esforço a ideia de que, apesar de tudo, os tons de pele eram múltiplos (no espaço e não mais no tempo), e arranjando para essa inovação de sua autoria uma explicação: a pele teria sido «branca e corada» ao mesmo tempo, devido «à boa compleição dos humores», i. e. ao equilíbrio dos humores linfático e sanguíneo! Era de facto recomendável arranjar uma explicação médica que não pintasse o infante D. Henrique ás riscas...

O simples facto de Barros, escrevendo um século depois da morte do infante, acrescentar dados de sua lavra, mostra como a construção original da frase lhe pareceu – como nos parece hoje – arrevesada e incompreensível. Aliás é interessante notar que Barros adapta respeitosamente a descrição do infante, que na sua época, tendo completado o percurso iniciado pelo panegirista Zurara, se encontrava já no panteão dos semi-deuses: enquanto na versão primitiva D. Henrique pura e simplesmente mete medo, na sua revisão o aspecto é apenas «um pouco» temeroso, e isso «por a gravidade de sua pessoa».

Mas suponhamos que foi efectivamente a pele que mudou de cor «pela continuação do trabalho», como os modernos estudiosos pretendem. Que trabalho teria sido esse? Zurara apresenta, de facto, o infante como um trabalhador sacrificado e incansável («duvidoso seria contar quantos pares de noites seus olhos não conheceram sono»), mas os trabalhos – no sentido de problemas – que conduzem a esse tipo de actividade frenética costumam alterar a cor do cabelo e não da pele, especialmente quando a actividade é palaciana ou nocturna, conforme o próprio Zurara nos informa. Se, por outro lado, foi a pele que mudou de cor, o «trabalho» teve de ser físico e violento, mas que se saiba o infante não viveu embarcado, não foi operário da construção naval, nem acampou ao ar livre no litoral algarvio.

Por que razão, que não releve de alguma associação incôngrua ao moderno reino turístico dos Algarves, haveria de bronzear mais o trabalho de D. Henrique em Lagos ou em Tomar, do que o dos seus irmãos em Lisboa, Évora ou Palmela? A imagem do infante D. Henrique apanhando o sol na costa algarvia ou nos terraços de Tomar, não é muito digna nem se ajusta à descrição de trabalhador incansável. Já houve uma época menos turística em que os historiadores de serviço ao lendário Infante de Sagres preferiam justificar o seu escurecimento pelo sol dos navegantes, e a sua pele gretada pela violência dos ventos marítimos (recordemos que a figura de chapéu borgonhês mostra efectivamente uma face «enverrugada» como a que Rui de Pina descreve para D. Duarte, et pour cause), e tudo isto se justificava pela sua ligação aos Descobrimentos!

Mas nem a famosa Escola Náutica de Sagres teria sido ao ar livre se tivesse existido, nem o facto de alguém se debruçar sobre mapas dos trópicos alguma vez implicou que sofresse as inclemências dessas latitudes. Quanto ao Algarve, o autor destas linhas passou aí alguns longos e trabalhosos invernos, sem que a sua pele se alterasse no mínimo, enquanto três ou quatro dias ociosos de verão, ao ar livre e à latitude de Lisboa, a escurecem rapidamente...

O que se passaria então com o infante D. Henrique para que se tornasse notória a sua mudança definitiva de cor de pele com o trabalho realizado nos seus palácios e conventos da ordem de Cristo, e não com as montarias recreativas ao ar livre noutro sítio qualquer? Só se a pele se tivesse tornado mais e não menos branca com o trabalho compulsivo e nocturno descrito por Zurara, mas é impossível introduzir esse sentido na frase, dada a sua construção...

Tudo isto é absurdo, e a única leitura que permite compreender a descrição é esta: «a cabeladura havia algum tanto alevantada, a cor (de natureza branca mais pela continuação do trabalho) por tempo tornou doutra forma». Ou, em português mais actualizado: «o cabelo era um tanto espigado e a sua cor – embranquecida mais pela constante atribulação – mudou com o tempo». Podemos pois sugerir a seguinte rendição do trecho de Zurara em português moderno, mantendo a palavra «mais» em vez de a substituirmos por «mas», como habitualmente se faz:

DESCRIÇÃO DO INFANTE D. HENRIQUE
(Zurara, Crónica dos Feitos da Guiné da Bibliothèque nationale de Paris)
TRANSCRIÇÃO
DO ORIGINAL
MODERNIZADA
(interpretação usual)
MODERNIZADA
(nova interpretação)
PORTUGUÊS
MODERNO
(...) ouue a estatura do corpo em boa grandeza e foe home de carnadura grossa e de largos e fortes membros a cabelladura auya alguu tanto aleuantada a coor de natureza branca mais polla continuaço do trabalho per tepo tornou dotra forma. Sua presença do primeyro esguardo aos nom husados era temerosa (...) (...) houve a estatura de corpo em boa grandeza, e foi homem de carnadura grossa e de largos e fortes membros; a cabeladura havia algum tanto alevantada; a cor de natureza branca, mas pela continuação do trabalho por tempo tornou doutra forma. Sua presença, do primeiro esguardo, aos não ousados era temerosa (...) (...) houve a estatura de corpo em boa grandeza, e foi homem de carnadura grossa e de largos e fortes membros; a cabeladura havia algum tanto alevantada, a cor (de natureza branca mais pela continuação do trabalho) por tempo tornou doutra forma. Sua presença, do primeiro esguardo, aos não usados era temerosa (...) (...) teve uma estatura de corpo de bom tamanho e foi homem corpulento com grandes e fortes membros, o cabelo era um tanto espigado e a sua cor – embranquecida mais pela constante atribulação – mudou com o tempo. A sua presença, à primeira vista, intimidava os não habituados (...)
Sampayo Ribeiro (1991) José de Bragança (1973) Nossas versões

Note-se que a manutenção da palavra «mais» (que é a que se encontra no manuscrito) na modernização do texto se torna duvidosa apenas se estivermos a imaginar uma mudança de cor da pele, para a qual não costumam existir muitas razões diferentes. Se compreendermos que se trata do cabelo e não da pele, a palavra «mais» torna-se inteiramente lógica e deixa de ser necessário o sentido «mas» com que sistematicamente a corrigem: o cabelo embranqueceu mais pela constante atribulação, porque também costuma embranquecer com a idade, e o infante morreu aos 66 anos.

O que Zurara nos está indirectamente a dizer é que o destino de D. Fernando e D. Pedro e as catástrofes de Tânger e Alfarrobeira não passaram ao lado do infante D. Henrique, e os sinais exteriores acompanharam talvez o sofrimento interior. Os adeptos do verdadeiro infante D. Henrique – que nada tem a ver com a criatura ficcional de Sagres – fariam bem em reconhecer o seu direito aos cabelos brancos, que até a sua irmã lhe concedeu.

A notável convergência das descrições físicas dos irmãos Duarte e Henrique com as suas identificações através da lógica interna dos painéis, processa-se do seguinte modo:

CONVERGÊNCIA DAS DESCRIÇÕES COM AS FIGURAS DOS PAINÉIS
Duarte
  1. O manuscrito do Rio indica que D. Duarte usava bigode.

  2. A Crónica indica que D. Henrique tinha cabelo branco.

  3. Bigode e cabelo branco são bons sinais identificativos.

  4. Nos painéis existem duas figuras, uma com bigode e a outra com cabelo branco, mergulhadas numa cerrada rede de significações, a nível dos respectivos painéis e de todo o políptico, que as aponta precisamente como D. Duarte e D. Henrique.

  5. A conclusão impõe-se e é reforçada pelas descrições físicas de D. Pedro que o confirmam no lugar que lhe é destinado pela mesma lógica interna do políptico.
Henrique

Não resistimos a citar um exemplo – entre muitos possíveis – que mostra como os mitos tendem a expandir-se quando não nos mantemos em guarda permanente. Na apresentação das actas do congresso «A Geração de Avis na historiografia – sécs. XV a XX» (1994), Humberto Baquero Moreno – um historiador e investigador rigoroso a quem aliás devemos inestimáveis trabalhos sobre a figura esquecida do infante D. Pedro e a confrontação de Alfarrobeira (de que a hagiografia henriquina parece fugir como o diabo da cruz) – faz a seguinte observação a propósito da descrição do infante D. Henrique por Zurara:

«Para além de toda a polémica travada em torno da efígie de D. Henrique considero que os indicativos mais válidos devem ser extraídos dos dados que o supracitado cronista nos oferece na Crónica dos Feitos da Guiné ao revelar-nos um homem de rosto branco e de cabelo negro e um tanto alevantado, com uma compleição robusta, e uma boa presença corporal...».

Cabelo negro e alevantado? E porque não loiro e alevantado? Em que local refere Zurara a cor do cabelo, se a cor branca se aplicar à pele conforme se supõe previamente? O poder do mito é este: infiltra-se, invade, transforma imperceptivelmente o branco em negro, e fá-lo tanto mais eficazmente quanto mais imprecisos forem os pressupostos de que partimos. O que o prof. Baquero Moreno está a ver quando nos diz que Zurara nos revela a cor negra do cabelo alevantado, é a imagem de D. Duarte que há mais de cem anos bloqueia a compreensão do políptico de S. Vicente de Fora, e não o texto que – para os que aceitam a cor branca da pele – apenas pode referir o cabelo alevantado sem mencionar a sua cor. E assim, a gravura é confirmada circularmente por uma descrição que por sua vez é deturpada pela gravura.

Se algum historiador futuro se debruçasse sobre esta descrição do Infante sem prestar atenção rigorosa ao original de Zurara, concluiria que este afirmou categoricamente a cor negra do cabelo, exactamente como concluímos desde João de Barros que a pele era branca, sem conseguirmos perceber por que razão mudaria de cor com o trabalho...


IV – AS DUAS FACES DO INFANTE

Nenhum estudo sobre as faces do infante D. Henrique pode deixar de fazer referência à efígie do seu túmulo e às dificuldades que a iluminura da Crónica dos Feitos da Guiné (códice existente na Bibliothèque nationale de Paris) levanta.

DUAS VERSÕES DO INFANTE D. HENRIQUE
Códice de Paris Painéis Túmulo
CÓDICE DE PARIS
Crónica da Guiné
PAINÉIS
o cavaleiro roxo
TÚMULO
moldagem do jacente

A efígie tumular e sua flagrante parecença com o cavaleiro roxo dos painéis são abordadas de forma muito convincente por Markl (1988). Os sulcos na testa e entre o nariz e o lábio da efígie da Batalha parecem, de facto, indicar os vestígios dos tubos de respiração que se aplicam durante uma moldagem facial em vida; o testamento do infante prova que já havia monumento funerário à data da sua morte, uma vez que o menciona, e portanto que a moldagem em vida é uma possibilidade real; e os traços realistas com acabamentos locais ingénuos nos olhos (que ficam fechados durante a moldagem e são posteriormente abertos na pedra) apontam uma imagem fiel rematada por um fraco escultor que seria certamente incapaz de definir um conjunto facial com tanta individualidade e ausência de esquematismo. Note-se que nem o esquematismo artístico e idealizado da escultura gótica, nem a continuação do esquematismo inepto que os olhos sugerem, estão presentes: a imagem é simplesmente naturalista e cheia de vida. Note-se ainda a presença de características fisionómicas, que parecem altamente individualizantes, comuns ao cavaleiro dos painéis e à cabeça do jacente tumular, especialmente no que diz respeito ao formato das narinas, boca e queixo.

As conclusões dos que se debruçaram sobre o rosto de pedra e consideraram que se trata de uma verdadeira efígie moldada sobre um rosto real parecem indicar que as suas proporções faciais são verosímeis, e a única objecção que conhecemos e diz respeito ao perímetro da cabeça (extrapolado a partir da parte mensurável, uma vez que assenta numa almofada de pedra) parece irremediavelmente ingénua: o perímetro é efectivamente excessivo (as medidas faciais jamais são citadas como objecção) mas não é relevante, uma vez que uma moldagem facial não se faz mergulhando a cabeça num balde...

O jacente tumular constitui pois uma confirmação dos painéis e um argumento mais contra a iluminura da Crónica de Zurara. Os problemas reais que esta levanta são, no entanto, bem-vindos na perspectiva da charada: se os problemas não são equacionados em toda a sua extensão, jamais as soluções serão avistadas.

A disciplina mental que captura simultaneamente a lógica e os disfarces sucessivos de um objecto único como o Políptico de S. Vicente de Fora, deliberadamente concebido para pairar sobre a fronteira que separa significação e acaso, permitiu-nos a compreensão do políptico da Esperança que ele encobre, mas como explicar que essa mesma aparente deliberação pareça prolongar-se para fora das seis tábuas? Como explicar a iluminura, também ela coberta de mistérios e contradições, que impede a compreensão dos painéis?

As duas páginas consecutivas do códice de Paris

CRÓNICA DOS FEITOS DA GUINÉ
CÓDICE DE PARIS (fl. 5vº e fl. 6)

Na ausência de um estudo científico completo do códice da Bibliothèque nationale de Paris, limitamo-nos a apontar alguns factos que nos parecem relevantes:

  1)  LIGAÇÃO DO CÓDICE AO POLÍPTICO

A iluminura reproduz a imagem do D. Duarte dos painéis por cima da divisa histórica de D. Henrique, bloqueando a identificação extremamente desfavorável deste último no polípticoUma imagem invertidaNote-se que a existência de uma ligação directa entre os dois retratos do homem do chapéu negro é óbvia e reúne um largo consenso. Tal como o rosto, a pose e o chapéu, a própria veste envergada nas duas representações da figura – com o mesmo corte, um único botão à altura do colarinho e variando apenas na cor – parece ser a mesma nos dois retratos, o que reforça ainda mais a ligação entre eles. Como diz Peter Russell (2000) a propósito dos dois, "the Paris portrait appears to be a mirror image [of the Polyptych portrait] so that their authenticity stands or falls together."

  2)  BLOQUEIO E MITIFICAÇÃO

A Crónica em que a iluminura se insere é feita de retalhos sobrepostos de obras anteriores, de ambiguidades e de contradições gritantes (2), e visa a glorificação do infante D. Henrique. Ou seja: o mesmo objecto confuso e contraditório que bloqueia a sua imagem desfavorável no políptico é origem da mitificação do infante como herói e quase santo.

  3)  ESPELHO DE UM ESPELHO

A imagem dos painéis encontra-se invertida na iluminura (como uma imagem de espelho) e essa inversão estende-se ao próprio botão da sua indumentária (um pormenor muito fácil de corrigir!). Note-se que a lateralidade correcta dos botões de indumentárias masculinas é a que se pode ver no políptico, não só na imagem do homem do chapéu negro, mas em todas as outras figuras masculinas que envergam vestes com botões. Por outras palavras: o políptico está concebido como um espelho, e a iluminura espelha esse espelho, ao mesmo tempo que bloqueia a sua compreensão.

  4)  DIVISA CONFUSA

O enquadramento em duas capelas geométricas da divisa do infante D. Henrique por baixo do retrato do códice,  parece forçado e desajeitado, a ponto de uma mesma letra ser desenhada de modos distintos num simples conjunto de dezasseis letras (o primeiro «a» de «Talant de bie faire» é diferente dos restantes). CapelasO tratamento extremamente atabalhoado das letras góticas faz suspeitar que possa ter existido um aproveitamento de alguns caracteres previamente existentes. Markl (1988) sugere que esses caracteres podem ter pertencido à divisa de D. Duarte «Tant que serey». Por outro lado, os dois triângulos alongados no interior das capelas (a provável origem das imaginárias «pirâmides» emblemáticas que frei Luís de Sousa, na sua História de S. Domingos, diz ter encontrado «em hum livro que [o infante D. Henrique] mandou escrever do sucesso destes descobrimentos») não se encontram em nenhum outro local apropriado como poderia ser, por exemplo, o próprio túmulo de D. Henrique, e são estranhamente sugestivos da balança usada como emblema pessoal pelo infante D. Pedro. Na ausência de dados precisos, pouco mais se pode fazer do que apontar as incongruências presentes na execução gráfica da divisa henriquina.

  5)  TROCA DE CORES

As bolotas e cascabulhos de carvalho que cercam o retrato da iluminura trocam as suas cores não só à altura do rosto (trocado em relação à divisa?), mas também dentro das capelas onde se encontra a divisa (trocada em relação ao rosto?). Não se vislumbra a razão de ser de semelhante anomalia, a menos que a troca das cores aponte algo que não está explícito, a propósito, por exemplo, do rosto e da divisa...

  6)  CONTINUIDADE FÍSICA

A iluminura (fl. 5 vº) faz parte integrante do segundo caderno (fls. 5 a 12), situa-se na continuidade do códice e, conforme se depreende do relatório descritivo de 1982 da Bibliothèque nationale (3), não parece acrescentada.

Cruz de Cristo manuelina   7)  CRUZ DE CRISTO MANUELINA

No manuscrito (fl. 6) encontra-se uma cruz de Cristo desenhada com o formato característico da época manuelina (rectilíneo e anguloso, em vez de curvo), indicando que os materiais mais antigos, possivelmente incompletos, foram mexidos e adaptados em épocas posteriores.

  8)  IMPORTANTE DISTINÇÃO EM PÁGINAS SUCESSIVAS

Um exame próximo do manuscrito revela, de forma imediata e flagrante, conforme já pudemos pessoalmente verificar, que, apesar da semelhança das cercaduras e ornatos, as áreas iluminadas a ouro na página do retrato e na página seguinte que lhe é fronteira, possuem brilhos completamente distintos de uma página para a outra, mas uniformes dentro de cada uma delas. Esta constatação, só por si, é de tal modo evidente e a distinção tão gritante, que se torna impossível contornar este importante indício de que as páginas foram iluminadas em tempos, e provavelmente por mãos, diferentes, ainda que a encadernação original as mantivesse na mesma posição em que se encontram actualmente, como parece decorrer da continuidade do caderno. A imagem das duas páginas que reproduzimos acima dá apenas uma pálida ideia da diferença dos dourados, que só pode ser devidamente apreciada através de um visionamento próximo do códice. Que semelhante contraste não pareça chocar os que acreditam num estado de inalteração das páginas desde a origem, sem consideração da forte probabilidade de mexidas em tempos distintos, é para nós uma fonte de perplexidade. A suspeita que se impõe é a de que uma página vazia ou incompleta (a do retrato e divisa) pode ter sido completada quando se coligiu ou finalizou o livro, e a página seguinte pode ter sido alterada na zona em que hoje se podem observar as armas do infante D. Henrique coroadas pela cruz de Cristo de formato tipicamente manuelino.

  9)  CULTO MANUELINO DO INFANTE D. HENRIQUE

A confrontação de Alfarrobeira teve consequências duráveis (visíveis, por exemplo, através de hiatos bem definidos na documentação da Torre do Tombo que chegou até nós intacta), e o apagamento de D. Pedro e D. João II através da glorificação do infante D. Henrique, foi uma política coerente da monarquia manuelina. A adoração do infante manifestou-se inclusivamente na estátua que lhe foi consagrada sobre o portal do Mosteiro dos Jerónimos (rodeada de profetas, santos e anjos, perto do local habitualmente reservado ao próprio Deus ou à Virgem Maria), estátua essa que apresenta por sua vez características curiosas: é completamente diferente de todas as outras imagens do infante, mostrando-o com um rosto distinto dos restantes e longas barbas (4).

  10)  CONCLUSÕES?

Que concluir de tudo isto? Em primeiro lugar, que o rosto erróneo do infante D. Henrique no retrato de Paris é provavelmente devido a erro involuntário ou negligência comodista de algum iluminador (tardio?).

Mas a história visível não é a história completa. A par da conclusão provisória mais provável, uma outra constatação é inevitável: painéis e códice datam de épocas extremamente conscientes da transmissão da história (e não só através dos cronistas a quem competia o seu registo), estão ligados por um retrato, e esse retrato é extraordinariamente conveniente para impedir a reflexão que o políptico das Janelas Verdes desencadeia quando é entendido. Não pretendemos tirar conclusões sobre a origem da iluminura, porque é evidente, na nossa época, que a ausência de regras no combate e o aniquilamento total são muito mais eficazes que a subtileza e a inteligência, e não passa hoje pela cabeça de ninguém que se pudesse preferir o duelo com armas iguais à simples e expediente destruição do políptico inimigo. Semelhante ideia só pode ter atravessado as mentes que podem ter estado sintonizadas na sua compreensão, e a necessidade de previamente se apreciar e se estar vocacionado para a ponderação das charadas ao nosso alcance, pode talvez explicar a sobrevivência do extraordinário políptico, bem como a escassez de referências históricas à sua existência e outros mistérios daí decorrentes.

Só o estudo científico detalhado do códice de Paris poderá um dia lançar luz sobre a sua origem e as razões por que veicula o falso rosto do infante D. Henrique, hoje reproduzido em miríades de representações que, através da face do seu irmão D. Duarte, passarão talvez nesse dia a comemorar toda uma geração de boa memória.


NOTAS

1)  A identificação faz-se através da legenda em latim gravada na moldura original que cerca o retrato, referindo-o como imagem verdadeira do retratado recém-falecido.

2)  As numerosas ambiguidades e contradições do códice são postas em relevo com acutilância por José de Bragança no estudo introdutório e notas que acompanham a sua edição da Crónica de Guiné (1973).

3)  Transcrito em Manuel Sampayo Ribeiro (1991).

4)  A identificação do infante D. Henrique na estátua sobre o portal dos Jerónimos faz-se através de referêrencias do séc. XVI, de João de Barros e Damião de Goes, e também pelas armas do tabardo que cobre a sua armadura, embora não se distingam as cargas do lambel que, no caso do infante D. Henrique, deveriam ser constituídas por flores-de-lis. No entanto, a própria existência de lambel sobre as armas portuguesas indica claramente que se trata de um infante e o que sabemos do culto manuelino do infante D. Henrique não deixa muitas hipóteses alternativas. Por outro lado, existem sérias discrepâncias entre as descrições do séc. XVI e a imagem que actualmente se pode observar, indicativas de que a estátua pode ter sido substituída ou modificada. Esta última hipótese pode, sem dúvida, ser investigada através de um exame detalhado das alterações da pedra original. A hipótese de a actual efígie do portal dos Jerónimos, com a sua longa barba e a sua completa dissemelhança de traços em relação ao rosto do jacente tumular, poder constituir uma representação realista do infante é ainda negada pelo facto de o próprio João de Barros, que na Ásia (1ª Década, livro IV) mostra conhecer a sua localização e aspecto, ignorar a existência de qualquer tipo de barba quando procede à descrição do infante que atrás mencionámos, remetendo-se exclusivamente à Crónica de Zurara.