INTRODUÇÃO

S. VICENTE DE FORA DOS PAINÉIS


(MAGISTER) ...Inter quas Sibillas prima fuit Persicha, cuius mencionem facit Nychanor qui ait: ecce bestia conculcaberis et gignetur dominus in orbem terrarum, et gremium uirginis erit salus gencium, et pedes eius in ualitudine hominum.

(DOMINUS HENRICUS) De aliis dicere digneris.

Fr. Andreas de Prato, Horologium Fidei  

Alice sighed wearily. "I think you might do something better with the time," she said, "than wasting it in asking riddles that have no answer."

"If you knew Time as well as I do," said the Hatter, "you wouldn't talk about wasting it. It's him."

Lewis Carroll, Alice in Wonderland  

Iniciandoste livro não partiu de qualquer pressuposto dogmático, mas de uma redescoberta progressiva e surpreendente que nos conduziu a formular uma teoria sobre a abordagem aos Painéis de S. Vicente de Fora ao longo do séc. XX. Essa teoria admite que a par da veneração de S. Vicente, tranquila e bem comportada, existem duas outras tradições, ambas esotéricas, uma delas inofensiva, feita de geometrias piramidais e proporções de ouro por toda a parte, mas a outra mortífera e com um inconveniente grave: o de corresponder à verdade. A verdade, neste caso, arrasta o fim do grande chapéu negro do infante D. Henrique e da sua sombra protectora, e o desaparecimento da paleta do maior pintor português. Implica ainda a conclusão de que as estátuas estão todas trocadas e valem muito pouco, mas deixa-nos em troca o tesouro da esperança colectiva no futuro.

A coisa pode funcionar assim: alguém escreve um livro ou artigo extremamente inverosímil, mas com a virtude de ser veemente e de fazer pensar. O ponto de vista oficial não aceita o combate, mas fornece algumas lições paternalistas. O furor do ponto de vista excluído aumenta, e suscita o aparecimento de novas heresias, cada uma mais arrevesada que a anterior. O resultado, para o observador atento e com alguma inclinação céptica, é a constatação surpreendente de que os pontos de vista oficiais ou semi-oficiais não são menos absurdos que os outros: têm apenas atrás de si o peso de algumas autoridades, mas autoridades que costumam recusar a discussão do principal documento em nome da Ciência, e alertar com alguma estridência para os «perigos das polémicas», sem todavia os discriminar.

Figura central com livro abertoFigura central com vara e livro fechadoA pergunta crucial «onde estão os atributos de S. Vicente?» é evitada a todo o transe, e o observador atónito apercebe-se de que mesmo os pontos de vista com maior aceitação conduzem a admitir discretamente a disposição dos painéis na vertical, ou a execução dos seis em tempos bastante diferentes, para evitar a simples e cristalina dúvida sobre a identidade de Sto. Incógnito-Sem-Atributos. As tentativas de discussão tendem, de resto, a centrar-se quase exclusivamente sobre a dupla figura principal, ignorando as outras cinquenta e oito e o mundo que as rodeia, e este foi, desde sempre, o maior obstáculo à compreensão do políptico.

Finalmente, alguém se apercebe da sua verdadeira natureza global, e resolve a charada de uma forma que torna a inevitabilidade da solução evidente aos poucos que acompanham a discussão com reproduções do políptico à frente dos olhos. A grande maioria, no entanto, não se apercebe sequer de que a discussão baseada nos «testemunhos» (as escassas e duvidosas referências históricas) e a discussão baseada no «documento» (as pinturas em si) são radicalmente distintas. Segue-se uma pausa embaraçada por parte dos que começam a compreender, e finalmente um muro de silêncio que pode durar algumas décadas, até que alguém escreva um novo livro inverosímil mas com a virtude de fazer pensar, iniciando um novo ciclo.

Esta pode ser, em linhas gerais, a história da charada das Janelas Verdes, e as razões que nos levam a reconstituí-la desta forma cíclica têm a ver com as nossas próprias memórias de infância. Dizem respeito a cavaleiros verdes, rainhas vermelhas e chapeleiros loucos, capacetes luminosos e coroas de pérolas, que varriam do campo de batalha as hostes do chapéu negro e os seus santos torturados com as suas camas de faquir.

Como sempre nestes casos de heresia, era um só contra muitos, e mesmo assim a luta era desigual em seu favor, porque o cavaleiro solitário usava armas muito superiores: nem espadas censórias, nem escudos académicos, mas uma simples balança com que pesava o acaso, infundindo o terror e desbaratando o inimigo. Sem orgulhos patrióticos lesados, sem censuras protectoras a defender a colectividade das ameaças indizíveis, a mensagem do Políptico da Esperança teria surgido à luz do dia e a sua pedra verde teria finalmente brilhado sobre este país.

Em vez disso, desapareceram da face da Terra os vestígios desse combate triunfal: não está referido nas enciclopédias, nem nas bibliografias das numerosas publicações sobre o problema dos painéis que consultámos; é desconhecido para os que conhecem os arquivos do Museu Nacional de Arte Antiga, de onde constam as principais polémicas jornalísticas; e não conseguimos sequer localizar qualquer eco na Biblioteca Nacional sob forma de livros ou artigos de revista.

A conclusão de que o combate ocorreu nos jornais diários, durante o fim dos anos cinquenta ou princípio dos sessenta, impõe-se-nos, e a razão por que não procurámos mais é esta: uma nova leitura teria tornado impossível a escrita deste livro, porque nada do que aqui se diz é inédito e, no entanto, tudo está esquecido. A única solução é redescobrir tudo, e o risco de ocupar o Assento Perigoso é real: o seu último ocupante, onde quer que possa estar, sabe que a verdade é única e a forma de a revelar sempre a mesma, mas os que não vão aceitar a charada, não vão aceitar tão-pouco a sua genuína redescoberta periódica. Ela vai, no entanto, continuar a regressar até ser aceite ou até ao dia do juízo final.

Das nossas reminiscências obscuras, a última é a mais forte. O pior embate do cavaleiro solitário não foi com as legiões do santo esgadanhado, nem com os dragões da desordem mental, mas sim com a dilatação do próprio espelho que ameaçava a ordem vigente. A sua mensagem final, antes de desaparecer, foi desesperante, porque já então era evidente que a razão estava do seu lado. Queria despedir-se (e a sua emoção era detectável) dedicando a sua descoberta ao filho de uma mulher que tinha deixado, há vários séculos atrás, uma assinatura num espelho, mas não o podia fazer ainda – dizia – porque os que o ouviam não o deixavam falar livremente.

Depois de ter tentado convencer os defensores das diversas escolas soporíficas de que a inteligência ainda existia no séc. XV e as charadas também – como a esfinge grega existiu antes de os cristãos a reinventarem – acabou por dedicar os seus esforços àqueles que queriam mas não podiam ainda entender, e deixou-lhes um «espelho no sapatinho»: foram estas as palavras literais com que desapareceu do historial dos Painéis de S. Vicente de Fora para não mais ser mencionado. A recordação confusa da leitura dessas últimas linhas de despedida desperta os ecos de uma tremenda frustração lacrimosa por não se poder perceber tudo (e muito menos o significado do fiel da Balança), e de uma fúria surda por haver quem parecesse perceber tudo de forma fulgurante, menos que cada um tem direito à inscrição do seu voto. Seria redundante dedicar este livro a alguém de que não conhecemos sequer o nome, porque ele lhe pertence desde sempre.

Quantos ciclos se cumpriram para além deste, não o sabemos nós, mas julgamos saber que existe uma tradição política à volta dos painéis e que a ideia da Esperança Futura data pelo menos da geração republicana. Um nome ligado à sua redescoberta moderna no Mosteiro de S. Vicente de Fora, nos anos oitenta do século XIX, é o do pintor Columbano Bordalo Pinheiro que certamente terá reflectido sobre o seu significado e foi autor, décadas mais tarde, do projecto de bandeira da República que a comissão de cinco membros a que ele próprio presidiu veio a adoptar em 1910. O significado esotérico dos painéis é persistente de uma forma difusa que parece ser antiga e dificulta a investigação rigorosa. Não existem muitos registos sobre o que podem ter sido as discussões iniciais acerca do significado da obra, até ao restauro de Luciano Freire em 1909-10, e a primeira exposição pública, feita em 6 de Maio de 1910, coincide de forma apropriada com a tradição que lhe atribuiu um valor político.

As coincidências existem, as profecias que se auto-cumprem existem igualmente, e a única coisa que se pode afirmar é que, independentemente das várias tradições, o políptico é o seu melhor documento. A melhor explicação da aura de mistério que o rodeia reside na dificuldade em fazer entender a sua mensagem: seria necessário compreender por completo onde começa e acaba o domínio do contingente para poder provar tudo a todos, e essa é uma empresa sobre-humana. É, no entanto, possível o uso do senso comum para fixar alguns limites ao acaso, e isso é suficiente.

A finalidade deste livro é provar que os Painéis de S. Vicente são uma charada intencional e, marginalmente, indicar a solução dessa charada. Divide-se em três partes e a mais importante é a primeira, onde se trata dos problemas de composição geral e das anomalias locais que cobrem a superfície dos seis painéis. A nossa própria solução para a charada não é o que mais importa, embora ela se nos afigure como inevitável. O que importa é que qualquer discussão sobre os verdadeiros painéis refira o que lá está, em vez de os trocar pelas versões inócuas ou involuntariamente falseadas que permitem discutir uma pintura de olhos fechados ou na ausência da mesma.

Porquê o espaço obscuro do painel dos Frades? Porquê as duas varas que parecem uma? Porquê as mangas desiguais da dama vermelha? Porquê o barrete fendido em duas metades? Porquê a cruz partida ao pescoço do cavaleiro roxo? Porquê tantos disparates concentrados num só políptico? Porquê tantas anomalias sem paralelos iconográficos? Existe mais algum S. Vicente como este? É este o tipo de perguntas que conduz à verdade, e é este o tipo de debate que deve ser retomado, até que a luz se faça.

Posto isto, interessa referir o que este livro não pretende ser, uma vez que não traz nenhuma descoberta documental, nem nenhuma interpretação histórica formulada em novos moldes. Dispensámos, em grande parte, o aparelho de referências e anotações que remete para as fontes, porque o leitor interessado poderá facilmente encontrar as passagens citadas nas edições correntes de Fernão Lopes, Zurara ou Rui de Pina, e partir daí para a leitura do restante, única forma de absorver o espírito de uma época que não é a nossa. Na bibliografia juntámos algumas obras que contribuíram para o nosso próprio entendimento dos acontecimentos históricos que explicam o políptico e, em especial, os relativos ao estado medieval de Borgonha e à duquesa Isabel, filha do rei de Portugal.

A referência bibliográfica às inúmeras contribuições para o estudo do políptico ao longo de todo um século seria, ou quase interminável, ou então injusta. A mais importante, conforme dissemos, não está ao nosso alcance porque não consta dos manuais. As outras, muitas delas notáveis pelo esforço de pesquisa documental ou pela intuição que permite avistar alguns dos mistérios dos painéis, estão documentadas em Painéis de S. Vicente de Fora – uma questão inútil? de Paula Freitas e Maria de Jesus Gonçalves (1987). O presente modo de utilização pretende ser uma resposta à pergunta das autoras e o complemento que faltava ao balanço por elas estabelecido.

O nosso próprio esforço para a resolução da questão é em primeiro lugar uma argumentação e não uma pesquisa histórica e, por conseguinte, permitimo-nos evitar a constante referência às origens de cada tese – por vezes, aliás, difíceis de determinar – na certeza de que o estudo para que remetemos o leitor preenche essa função. Limitamo-nos pois a referir na bibliografia as obras que, independentemente de todas as divergências, foram para nós mais importantes, e a marcar a nossa dívida para com os seus autores. A bibliografia inclui todos os livros e artigos que no texto se encontram referidos sem ambiguidade sob a forma «nome do autor (ano de edição)».

Expressamos aqui o nosso agradecimento a Claudine Lemaire pela amável disponibilização do indispensável catálogo da exposição sobre Isabel de Portugal, em Bruxelas, e ao Centre européen d’études bourguignonnes pelo simples facto de constituir uma fonte imprescindível de informação sobre a Borgonha ducal, que a prolonga através do tempo e das fronteiras. Os nossos agradecimentos dirigem-se também a todos os que nos facilitaram o acesso a livros difíceis de localizar, a obtenção das imagens necessárias e o acesso a meios de divulgação, especialmente a Roberto de Moraes, Eurico de Barros, Luís Bélard da Fonseca, José Xerez e Luís Calçada, bem como a Dagoberto Markl, no âmbito do Museu Nacional de Arte Antiga, Ildefonso Loição pela colaboração fotográfica e Matthias M. Giwer pela execução gráfica da pedra verde emblemática. E, finalmente, ao interesse de José Cerqueira Esteves e José Sebrosa sem cujo encorajamento e apoio logístico esta colocação em linha estaria ainda na gaveta dos projectos adiados.

A tese, hoje esquecida ou ignorada, que progressivamente redescobrimos para nossa própria surpresa e procuramos ressuscitar conforme podemos, tem passado por diversas tentativas de divulgação, entre as quais artigos esparsos no Diário de Notícias, desde 5 de Maio de 1994 (1), e uma série de conferências em 1995 para o grupo interdisciplinar Principia, orientado por Henrique Leitão. Formulamos o voto de que a sua acessibilidade electrónica possa contribuir para a recuperação das memórias desaparecidas e nos conduza ao conhecimento do elo anterior de uma cadeia cuja extensão ignoramos.

Uma última justificação nos parece necessária: o leitor desprevenido pode estranhar por vezes alguma hostilidade em relação aos defensores da tese vicentina e do mito de Nuno Gonçalves que usualmente a acompanha. Essa hostilidade é apenas aparente: são o carácter dogmático da veneração de S. Vicente, e sobretudo a ausência de um debate sério e exaustivo, que merecem a provocação, e não os que se vêem na posição de seus defensores, apesar de muitas vezes merecerem melhor e de por vezes serem responsáveis por importantes perspectivas cujo desenvolvimento só o enraízado dogma vicentino impede.

Quanto ao que poderíamos chamar a percepção nacional dos Painéis de S. Vicente de Fora e da «escola de  Nuno Gonçalves», será talvez verdade que os sonâmbulos não devem ser acordados com violência, mas não deverá uma excepção ser aberta quando a crise colectiva dura há cinco séculos?

Qualquer discussão sem a presença dos martirizados painéis, de forma a que o conjunto e o pormenor possam ser visíveis, é impossível, mas esperamos que estas páginas possam contribuir para manter o hábito inestimável de colocar perguntas e discutir respostas. Se os mistérios que resistiram à lenta sucessão dos séculos sobreviverem no milénio que se inicia, recordem-se os que querem mas não podem ainda entender, para quando enfim chegar a nossa hora.

Em electrões virtuais, a partir de 24 de Outubro de 2003.

António Salvador Marques


N.B.: Por uma questão de método e comodidade utilizaremos, sempre que designarmos a direita ou a esquerda, uma convenção diferente da habitual: o ponto de vista do observador prevalecerá sempre, excepto quando forem designadas partes anatómicas das figuras ou o contexto tornar evidente a quebra da norma.

NOTAS

1)  Artigos no Diário de Notícias, abordando, directa ou indirectamente, o tema dos Painéis: «O Enigma dos Painéis: A luz nasce do espelho», 5 de Maio de 1994; «Dois votos e dois cintos», 19 de Maio de 1994; «Regresso ao Espelho», 2 de Junho de 1994; «As duas faces do Infante», 1 de Agosto de 1994; «Crónica da reconquista dos Painéis», 9 de Dezembro de 1994; «Crónica da batalha silenciosa», 19 de Dezembro de 1995; «O políptico das duas assinaturas», 9 de Março de 2003.